Terça-feira, 14 de Outubro de 2008
A despedida.
Terça-feira, 23 de Setembro de 2008
Ela era ela (ou Conto Fantiano nº I).
Cada vez que ela mexia o cabelo, era como se eu morresse um pouco. Jogava as mexas extremamente lisas para trás com seus dedos finos de unhas sem esmalte. Era simples no jeito de ser, porém, tomada de uma segurança perturbadora. Costumava sentar-se na penúltima mesa das oito dispostas no local. Concentrava-se em um calhamaço de folhas enquanto atirava cigarros num cinzeiro já atolado de bitucas de diversas marcas e tamanhos. Não necessitava de afirmações ou falsos carinhos. Arrumava a franja que teimava em lhe cobrir os olhos, o nariz pequeno e o maxilar delicadamente arredondado enquanto comia algumas uvas.
Perdia várias conversas que na verdade nem me interessavam, para encará-la e decorar detalhes de seus movimentos. Suas bufadas ao ler o calhamaço de folhas da mesa, os cabelos teimosos escapando detrás da orelha para brincar na frente das letras, seu sorriso que fazia a língua se aventurar envergonhada pra fora da boca forçando uma discreta fechada maligna dos olhinhos negros. Ficava ali sentado meio a completos desconhecidos, bebendo de graça e aguardando o sinal de me retirar para que a verdadeira noite começasse.
Tinha costas esguias e sensualmente divididas por um vinco que descia até a base, onde duas cavidades delimitavam o começo de nádegas arredondadas e espantosamente belas para mulheres conhecidas por nascerem numa região onde não se tem bunda. Sempre levava uvas verdes para saborear entre um afago e outro, e para jogar na minha cara que as uvas de sua terra eram incomparavelmente melhores que as daqui. Levantava e ia se olhar no espelho, degustando suas uvas e arrumando a lingerie. O mais incrível é que não era vaidosa e tampouco egoísta. Era apenas tomada pelo momento, cuspindo com seus gestos sexualidades que a vida didática lhe privava. Naquelas horas, fechada naquele meu quarto alugado, sentia se bem andando de roupa de baixo e nada mais, explodindo em êxtase de um lado para o outro, mirando meus poucos gestos cansados e jogando risadas à toa pelo cômodo pouco iluminado. Assim como sua outra vida lhe obrigava de certa maneira, acabou por adquirir o hábito de falar em demasia. Não que isso fosse ruim, pois me agradava bastante ouvi-la falar por horas.
Contava histórias e explicava pensamentos enquanto eu, calado, canalizava a atenção em cada movimento, cada gesto seu. Eu não precisava de mais. Estava sempre nua ou seminua, desejando minha atenção e, de certo modo, minha opinião. Era o suficiente para eu não querer sair nunca mais daquele quarto. Às vezes ela colocava seu jeans velho e uma de minhas camisetas surradas e ia me buscar cigarros ou cerveja gelada. Voltava em minutos com uma sacola cheia de outras guloseimas e tinha sempre algum acontecimento no caminho que tinha de contar. Já abria a porta quase no meio de alguma narrativa fantástica e gargalhava sem pudores enquanto abria outra cerveja.
Eu via nela uma urgência de viver aqueles momentos com uma sinceridade tão plena, daquelas impossíveis de se aplicar num dia-a-dia em sociedade sem ser confundida com hostilidade, desespero ou deboche. Ela queria viver duas vidas. Uma por prazer, naquelas horas de conforto e liberdade em que brincava quase sem roupas depois de me deixar estirado na cama; e outra por falta de coragem, no resto do tempo em que exercitava a arte obrigatória de dissimular. Eu vivia dizendo que hora ou outra ela se cansaria de uma dessas duas facetas e, por fim, ela acabou provando que eu estava certo. Pagou três meses adiantados do meu aluguel e sumiu sem deixar sorriso ou sobrenome.
Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008
Tô chegando, amor
As tais encostadas geravam serias discussões de tempos em tempos por conta dos suadouros da Dona Adelaide, pois quando o calor ficava do mais insuportável, era ela quem sentia desconforto no escuro com o contato pegajoso e constante do marido.
Dorival já tinha seus 94 anos bem expostos nos olhos caídos e perdidos, na cabeça obliqua com uma testa levemente avançada por uma calvície que não teimou muito em seguir adiante. O nariz redondo e acentuado para baixo quase escondia os bigodes brancos e desleixados que por sua vez não conseguiam esconder o sorriso sincero que sempre deu, desde de a época da juventude roubada pelas décadas que se seguiram. Estava há semanas sem dormir, varando madrugadas com os olhos perdidos no teto branco de madeira ou nas paredes cor azul-celeste impecavelmente limpas, assim como as cortinas sem um único vestígio de pó.
Acariciava carinhosamente o violão para espantar o desespero, tecendo algumas velhas melodias pra se proteger do medo. Pensava que novas canções eram por demais frágeis e poderiam ser consumidas por algum sentimento ruim, o que seria um pecado com sua obra imaculada em alegrias.
Dona Adelaide telefonava todas as tardes do hospital para escutar a voz do marido. Passava o dia deitada no quarto muito bem iluminado e tinha as narinas sempre acariciadas pelos perfumes diáfanos das flores que lhe faziam companhia, na falta de um dos três filhos. Não permitia que seu marido a visitasse devido à idade que lhe consumia sem tréguas dos pés à cabeça. Passavam bons minutos atualizando o dia-a-dia de cada um que na verdade não incluía nenhum evento de fato interessante, já que ambos já não tinham disponibilidade para grandes afazeres. O importante de tudo era ouvir a voz já acostumada na cabeça. Era um vício ter que escutar pelo menos a respiração nos dias em que os causos acabavam depressa demais.
Ela não ligava há dias e ele não ligava pra mais nada. Não queria mais saber de dormir e não deixava mais ninguém esfregar suas costas na hora do banho. Parou de reclamar das dores nos rins e ficava lembrando das broncas que ganhava por beber pouca água durante os dias com temperatura mais elevada. Deitou-se tranqüilamente após algumas horas agarrado ao violão desfilando melodias que mesclavam entre velhas e novas, numa apresentação final para público algum. Tinha a certeza de que era o certo a se fazer e estava bem com o fato. Faleceu às seis da manhã, quando já não estava mais escuro.
Dona Adelaide estava em coma devido ao coração já fraco dos seus 86 anos de trabalho, boa parte dedicado ao esposo. Os três filhos alternavam seus cuidados com as visitas ao pai que ia pouco a pouco se despedindo de seu violão e solidão. Optaram por não clhe contar do estado da mãe para evitar que o fato pudesse o afetar, sem saber que tentavam evitar o inevitável. Dona Adelaide nunca mais voltou do coma. Faleceu após 11 dias da morte do companheiro de toda a vida, depois de uma espera no limbo que separa os vivos dos mortos, se remoendo de culpa por deixar o seu Dorival só no mundo, já impedido de tentar desbravá-lo como tanto já o fez em sua trajetória encantada.
Dona Adelaide só se foi depois de saber, de alguma maneira, que seu querido homem já estava à sua espera em algum lugar.
Homenagem à Dorival Caymmi e Stella Maris.
Obrigado pela magia.
Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
Cuzão.
Eu saí pro quintal levando meus cigarros e uma garrafa. Estava sem camiseta e descalço enquanto me dirigia pro meu lugar preferido na casa. Era uma muretinha com pouco mais de um metro que ficava na varanda, onde eu gostava de me sentar e deixar os pensamentos subirem minha rua até me alcançar. Acendi um dos cigarros, mas logo vi que não foi uma boa idéia. O calor fazia a fumaça se arrastar pela minha garganta seca e parecia que eu soprava só ar, pois a porção de fumo havia ficado incrustada nos meus pulmões.
Meus devaneios fugiram assustados com a gritaria da casa em frente. Era uma casinha bem modesta onde morava uma família sem nenhum pudor de mostrar seus problemas pra quem quer que fosse. Na verdade o terreno tornara-se um complexo de três casas. Um sobrado que foi dividido tornando-se duas casas, uma em cima e outra abaixo, enquanto nos fundos, outros cômodos foram aglutinados formando uma última e desesperada morada. A confusão estava justamente ali. Uma pequena família de três figuras bem interessantes:
O pai, vagabundo clássico que só levava pra casa o bafo de cachaça e nada de dinheiro. A mãe, uma mulher bem desarrumada, que parecia ter vinte anos a mais do que realmente tinha e parecia sentir prazer em berrar um português errado. Finalmente, a família era completada pela filha, uma garotinha magricela cuja voz eu nunca ouvira.
Nesse dia, meus pensamentos correram no momento em que a merda começou a feder. Ouvi um barulho de vidro quebrando enquanto a mulher urrava palavrões de diversos calibres. Ela gritava mais que o marido, falando frases repetidas enquanto ele balbuciava alguns argumentos atrasados por conta da pinga. Eu olhei pro que dava pra ver daquela casa enquanto entornava meio copo numa talagada só. Era estranho ver a casa ali, inalterável por fora, enquanto que lá dentro devia estar tudo girando, se debatendo, se espremendo e alargando com os berros e movimentos bruscos de seus moradores.
A causa da tal briga era uma certa conta de telefone. O pai havia ficado puto e tentava babar palavras besuntadas em álcool para dizer que não pagaria porra nenhuma enquanto agarrava o braço fino que nem varola da garotinha. Dizia que ia quebrar a boca dela de pancada pra ver se ela falava menos e pensava mais. A mãe começou a empurrá-lo enquanto se armava de copos e tampas de panela prontas para serem arremessadas enquanto retrucava, no seu tom estupidamente alto, que se entrasse algum maldito dinheiro naquela casa, as contas poderiam ser pagas, que ele não podia reclamar de porra nenhuma, uma vez que a casa era dela e que ele deveria sair de lá, que ela colocaria um homem de verdade no lugar. Ouvi a porta batendo com força no meio daquele berreiro todo e vi também a menina descendo a escada com o rosto sujo e marcado das lágrimas. Abriu o portão do complexo de três casas e sentou-se no último degrau que dava pra calçada toda quebrada pelas várias raízes da árvore velha que ficava ao lado do portão. Tinha os joelhos ralados e o vestidinho todo amarrotado. Era novinha, provavelmente perto de debutar. Ficou imóvel ali por alguns minutos, sentada com a barra da saia entre os joelhos e os olhos focando alguns prováveis detalhes das sandálias velhas que usava.
Percebi, de repente, que ela estava me olhando. Me encarava com uma mescla de fúria, desespero e vergonha sem limites, enquanto a treta ainda comia solta e os gritos ecoavam em todos os cômodos quase vazios do aglutinado final do complexo de três casas.
Eu não sei dizer ao certo se ela só queria que eu não estivesse ali, ou se queria algum tipo de conforto, de carinho. Eu não olhei de volta. Fiquei lá, sentado na mureta e engolindo a fumaça do cigarro que descia na marra, levada à força pela bebida quente que sumia do copo rapidamente nas goladas que eu dava. Ficava olhando pro alto, pras casinhas pequeninas no começo da minha rua. Não consegui virar o rosto.
É preciso ter muito culhão pra encarar o olhar de uma garotinha triste.
Terça-feira, 10 de Junho de 2008
Sgt. Peppers Talk.

O que fazer com a tal banda dos corações solitários? (ela sorri; ele sorri e fala pausadamente). Acho que só saberei quando tiver....uns.....64. (ela ri suspirando e ainda encarando o teto). Mas já está ficando melhor. Tudo deve ser mais fácil com uma pequena ajuda dos amigos (ele a encara sorrindo levemente enquanto ela solta um sorriso somente em um canto da boca). Se bem que eu tenho que descobrir isso com ou sem você. Mesmo assim...já é um conforto enorme.
Bem que nós poderíamos ser malucos (ele gesticula e ela ergue a cabeça curiosa). Como assim? (ela afasta as costas do sofá enquanto ele se levanta e começa a “interpretar”). Imagina só! Dois malucos correndo por alguma avenida cheia de gente, berrando “bom-dia! Bom-dia!” (ele vai até a sacada e a leva pelo braço). Se a gente fosse meio doido, encontraríamos outros doidos por aí! Aquele cara...aquele cara pode ser um louco! (aponta) Imagina! Você em alguma confeitaria qualquer, de pijamas, tomando chá das cinco com....a.....adorável Rita! (faz uma pose e aponta para uma mulher qualquer na rua); uma senhora com duas mil histórias sobre seus gatos ou sobre os dissabores da vida.
Ela ri inocentemente e questiona: E você? Qual seria seu nome de louco? Sr. Kite? (ela ri, ele responde) – Nãão...muito inglês. Enquanto isso eu estaria a caminho do encontro, mas....pelo alto. Pegaria uma carona com nossa amiga Lucy....no céu (aponta para um céu azul bem clarinho e sem nuvens, com uma ou duas silhuetas de pássaros bem distantes)
(câmera corta para dentro do apartamento, enquanto os dois vão entrando com sorrisos tranqüilos na cara, tentando voltar à realidade). Mas ela deve estar deixando o lar neste instante. E a gente fica aqui, consertando um...buraco (diz incisivo, enquanto aponta com as duas mãos para o próprio peito, novamente sentado com as costas arqueadas pra frente).
(ela volta a sentar-se ao seu lugar anterior, encostando a cabeça no encosto do sofá e dando um suspiro cansado, enquanto ele pergunta olhando pra frente) Vamos lá, vou repetir: o que fazer com a banda dos corações solitários? (ela olha de canto de olho pra ele com ar de questionamento, como quem quer dizer “pois é...o q fazer, Não!?).
(Emiliano não olha para Patty ao responder a própria pergunta) na verdade não importa...hoje é só mais um dia na vida...não é mesmo?
(Ele recosta o corpo no sofá e ela deita a cabeça em seu ombro enquanto a câmera se afasta e mostra ambos com pensamentos muito distantes, analisando despretensiosamente a conversa que tiveram agora...)
Segunda-feira, 14 de Abril de 2008
O momento iluminado de Serj Iderpa.
E há tempos não se ouvia falar dele.
Mais conhecido como “A Sombra de Houdini”, o grande Serj Iderpa vivia recluso há anos por motivos até hoje desconhecidos. Era um rapaz robusto e arrogante que fez fama e dinheiro revivendo e desafiando as grandes fugas de Harry Houdini. Após um fatídico episódio envolvendo uma de suas apresentações, Serj sumiu sem dar notícias. Dizem os mais velhos que ele estava confiante demais e se jogou rápido demais. O que deixou Serj realmente frustrado, dizem os mais velhos, é que ele não esteve perto de se afogar, que tudo foi tão rápido e rasteiro que não chegou nem a haver emoção do perigo de beijar a face da morte. A falta de sentimentos verdadeiros o abalou. Desde então o “Fabuloso Serj” virou mito e suas famosas fugas, lendas a serem contadas após o jantar.
Londres vivia tempos tranqüilos quando, sem mais nem menos, vários cartazes amanheceram colados pela cidade, nas portas dos pubs, nas escadas do metrô e em outros locais de grande movimentação.
“O grande Serj está de volta!” – Era o que dizia o cartaz, logo abaixo de uma foto em preto e branco de um homem de costas usando um maiô antigo e listrado. Ninguém sabia apontar com certeza se o homem da foto era o lendário Serj Iderpa.
Milara Afuj era uma moça que não queria ser moça. Gostava da juventude, mas sua cabeça andava automaticamente à frente e isso não a incomodava. O que incomodava eram os comentários da família e das amigas sobre sua mente diferente e incontrolavelmente desafiadora das ordens da época. Suas manias assustavam seus pais e seu carinho e tranqüilidade deixavam qualquer um intrigado. “A vida é muito mais que vestidos e posturas” dizia a menina de olhos espertos e sorriso grande.
Faltava aos pontuais chás das cinco para passear pelas ruas cinzas e divagar sobre o contraste que faziam os vermelhos intensos ou os verdes brilhantes das cortinas nas confeitarias. Distribuía abraços e sorrisos mesmo nos dias mais chuvosos e melancólicos. Milara estava decidida a enfrentar a vida com todo o amor que conseguia tirar de si.
Assim como tudo que lhe era novo na vida, o cartaz do suposto retorno de Serj atraiu sua curiosidade juvenil. Arrancou um da esquina de sua casa, dobrou com cuidado de maneira que a chamada e a data ficassem a mostra. Mostrou para os amigos que não fizeram muita questão. “É só um velho querendo aparecer” diziam os menos curiosos. “Meus pais vivem falando dele” comentavam os mais atentos, mas igualmente desinteressados. “Não faço questão de ir ver alguém se suicidar em público” diziam todos.
A calma de Milara era tamanha que não se abalou com a falta de empolgação e companhia. Na verdade, ela nem chegou a dar ouvidos para os comentários alheios e continuou andando solitária com o cartaz no meio dos livros que levara consigo. Estava decidida a ver a atração e estava decidida a fazer daquele evento algo que mudasse sua vida de alguma maneira positiva.
Na data, lá estava Milara a caminho do rio Tâmisa, perto do parlamento, onde estava marcada a volta triunfal do “Fantasma de Serj”, como apelidaram alguns.
Havia tempos que não se fazia um frio daqueles.
E há tempos não se sentia com o coração apertado daquele jeito.
Estava parada no gramado, tremendo de frio mesmo com o casaco preto e uma flor decorativa na boina também preta. Algumas pessoas já estavam reunidas próximas ao furgão antigo. Não se via sinal do tal Serj, mas podiam ver dois ajudantes abrindo as portas de trás do furgão e tirando de lá um cubo de vidro grande e algumas correntes pesadas e com algumas ferrugens. Depositaram o cubo pesado no chão e deixaram o local assim, como num passe de mágica.
A pequena multidão começava a se apertar para ver e um pequeno grupo de policiais sem expressão rondavam o local com seus chapéus presos em seus queixos. Havia um ar de curiosidade em alguns, de nostalgia nos mais velhos que lembravam de dias mais felizes, quando artistas viajantes simplesmente paravam em uma rua qualquer para demonstrar suas peripécias ou seus dotes com pincel, comidas e outras traquinagens. Naquele tempo, tudo era novidade e todos eram mais inocentes, deixando-se levar pela maré de novas emoções e pensamentos.
Um anão misterioso de cabelos enrolados e óculos de aro grosso desceu rapidamente da traseira do furgão dando cambalhotas e correndo ao redor de algumas pessoas, aproveitando-se da baixa estatura que tinha para abraçar as coxas de algumas damas que davam pulos assustados e sorrisos amarelos, evitando escândalos “desnecessários”. Após toda a brincadeira, o anão seguiu calado até o furgão e retirou uma mangueira de dentro da traseira, levando-a até o cubo de vidro grosso e fixo em hastes de metal já sem o brilho de outros tempos, mas com a mesma força de evitar que água alguma escape do misterioso cubo durante a apresentação que estaria pra acontecer. A mangueira, após ter sua ponta devidamente apontada pra dentro do cubo, jorrou um líquido espesso e levemente tomado de um tom dourado. O anão sorriu para a platéia e saiu correndo rumo ao nada, desaparecendo também da vistas cada vez mais curiosa do aglomerado que ficava cada vez maior.
Após um tempo que não levou mais de dez minutos, o cubo estava com líquido à pouco mais de dois dedos da borda e, sem que ninguém avisasse, o líquido espesso e dourado secou e a mangueira caiu no chão sem que fosse puxada. Bem no centro dessa multidão, um bater de palmas começou a chamar a atenção de quem estava ao redor e as pessoas mais próximas começaram a se afastar e a atenção foi focada num homem de cartola, sobretudo negro e luvas de couro. Estava com a cabeça abaixada e os pés juntos, bem plantados no gramado pisoteado. Parou de bater palmas, retirou as luvas como se o tempo não existisse (ou o tempo parou para as pessoas ao redor que quase morriam de curiosidade e tentação de ir ajudar o homem que não tinha a mínima pressa com a vida), guardou-as no bolso do sobretudo e retirou a cartola enquanto já caminhava. Foi até a frente do furgão preto e depositou, tanto a cartola quanto o sobretudo.
Milara mal cabia dentro de si com tantos pensamentos. Respirava toda a ansiedade e sua ingenuidade juvenil vinha à tona com toda força, transbordando pra fora do seu sorriso incontido e sincero. No momento em que viu Serj Iderpa virando-se para o público que o aguardava, e curvando-se delicadamente para cumprimentá-los, bem naquele momento, um novo dia se apresentava diante de seus olhinhos felizes. A salva de palmas da multidão que retribuía o cumprimento do homem que lhes apresentava de maiô antigo e listrado em preto e branco não chegavam aos ouvidos da menina que não queria mais ser menina.
Serj estava parado vendo pessoas novamente. Passou um bom tempo mergulhado em intensa solidão e quase desacostumara com os aplausos e a atenção voltada para si. Seus olhos cansados tornaram-se vívidos de novo no preciso momento que conseguiu observar, meio longe, uma flor decorativa na boina de uma menina de pele clara e bochechas rosadas (ficou se perguntando se as bochechas da moça eram daquela coloração por natureza ou devido ao frio daquela tarde). Sua alma foi consumida de uma excitação sem precedentes e um sorriso brotou em seu rosto sem que ele percebesse.
Automaticamente ele deu uns passos a frente e encarou a menina que, do mesmo modo instintivo, aproximou-se da linha de frente formada pelas pessoas mais empolgadas com o espetáculo. Ambos estavam agindo sem que suas mentes mandassem, sem que a racionalidade os auxiliassem. Havia um poder maior regendo tais movimentos.
Serj foi o primeiro a voltar para a sua consciência e retomou o rumo para frente do cubo de vidro cheio de líquido dourado (nesse momento já não existia mangueira caída perto do cubo. Desaparecera sem que alguém desse conta). Seus dois ajudantes eram morenos, magros e muito parecidos. Faziam quase os mesmos movimentos, mas Serj sabia distinguir quem era um e quem era o outro. Juntos, os ajudantes aprisionaram o lendário Serj Iderpa com as correntes enferrujadas, mas grossas o suficiente para criar expectativa e até certo pânico em alguns. Prenderam as correntes em seus punhos, em seus calcanhares, fizeram voltas e mais voltas em seu tronco corpulento e “decoraram” os elos com vários cadeados de cor prata. Saíram novamente para sumir em instantes, logo após ajudarem Serj a ficar sentado na beira do cubo. O Intrépido Serj deu uma última olhada na platéia que nesse momento fazia um silêncio descomunal.
Havia tempos que não se fazia um frio daqueles.
E há tempos que o vento cantarolava misteriosamente desse jeito.
Ficou ali sentado e acorrentado por alguns minutos, enquanto as pessoas se remoíam em desespero. Mãos suavam dentro dos bolsos, dentes cerravam e músculos enrijeciam. Serj olhava para o alto, para o cinza que tomava conta dos céus acima de todas as cabeças. Respirava o ar frio da tarde e tentava memorizar a imagem que vira há pouco. Desceu a vista para todos novamente e deixou o corpo pender para trás. O som da água tomou conta do ambiente e logo começou a travar uma briga não muito intensa com o silêncio que teimava em pairar. Como Serj quase não se mexia, a água fazia sons quase surdos.
Tudo aconteceu rápido demais, mas desta vez com intensidade suficiente pra mudar tudo. Serj ficou dentro do líquido e parecia não tentar fuga alguma. O líquido dourado foi ficando cada vez mais calmo e os movimentos de serj, praticamente nulos. Os ajudantes não voltavam e não se teve mais notícia do anão de óculos. Foi preciso que três homens corressem e puxassem Serj de dentro do cubo. O corpo estava mais pesado e inerte. Serj não chegou a se afogar, mas a falta de ar o fez perder a consciência e, se não fossem esses três homens, não se sabe o que poderia ter ocorrido.
Milara assistira tudo sem se mover. Apenas deixou os braços amolecerem e seus livros caíram deixando o cartaz dobrado com cuidado de maneira que a chamada e a data ficassem a mostra voar com o vento forte. Viu o homem encantado lhe encarando, vira sua alma e sentira o calor que emanava dela. Vira o corpo enérgico pendendo para trás e ficando imerso no líquido dourado. Assistira os poucos movimentos, a falta de atividade dentro do cubo de vidro e a correria dos três homens. Percebeu sem sair do lugar a multidão assustada e revoltada dispersando e minguando. Resolveu se mexer só quando os três homens conseguiram acordar Serj e abandonarem o homem que lhes causara tanta preocupação. Os homens, após conseguirem fazer Serj abrir os olhos e dizer que estava bem, xingaram-no e abandonaram-no à sorte. Milara acompanhou toda a situação calada, sem saber como proceder nesse momento tão delicado.
Serj ainda ficou uns minutos deitado olhando pro alto com os olhos mortos e um sorriso completamente extravagante.
Milara voltou para pegar seus livros, abraçou-os com força contra o peito e ficou parada á frente do homem de maiô antigo e listrado que instigava toda a sua curiosidade.
“Por que você fez aquilo? Por que tentou se machucar lá dentro ao invés de resistir e conseguir escapar?” – Milara perguntou com toda a tranqüilidade que lhe era peculiar. Milara realmente não entendeu porque um homem que propunha uma coisa fez outra alheia a normalidade. Não perguntou com ar de reprovação. Só queria entender o que poderia ter acontecido.
“Após tantos anos – retrucou Serj Iderpa sem sair da posição em que estava – eu pensei que havia esquecido os tempos difíceis. Quando vi seu rosto, a sua pessoa, a alma através do sorriso teu, eu senti a necessidade de me machucar por dentro pra sentir algo mais que vida”. Ao contrário do que se imagina, Milara entendeu completamente o que Serj sentiu e o que pretendeu. Ela entendeu a essência daquele pensamento e sorriu meio envergonhada. “E quer saber? - Foi ótimo”. Essa foi a frase final de Serj praquele episódio.
Ficaram ali parados por mais alguns minutos, observando a nova vida que se formava diante deles. Não estavam com pressa de aproveitar essa nova sensação, não porque eram estúpidos demais para deixar escapar tal momento tão interessante, mas porque sabiam que era simplesmente inevitável escapar desse novo mundo que se coloria ao redor, nas coisas mais triviais e nos sentimentos mais recônditos.
Quinta-feira, 13 de Março de 2008
Chafurdando na lama
Há tempos queria tirar a prova e atestar o inquestionável. Sabia bem dos limites de um relacionamento sadio, mas botou na cabeça que ninguém é saudável e que todos somos sádicos.
Além de sádicos, ele sabia muito bem que todos nós somos masoquistas e, com toda a dor possível, ele abriu sem pestanejar a terceira e última gaveta que ficava rente ao chão atapetado. Encontrou a caixa rosa de bombons finos e parou para analisar por um momento todo o contexto desse ato.
Mais humano que procurar o sentido da vida é achar motivos pra morte (não necessariamente a morte física, mas a morte de ideais, de propostas, projetos e devaneios). Buscamos a todo instante o prazer na desgraça e até superestimamos as situações para martirizar nosso ser e o nosso estar.
Voltou seu olhar para a cama e percebeu que ela não havia se mexido. Estava na mesma posição que a deixou quando retirou o braço calmamente debaixo do travesseiro dela com o objetivo bem definido de encontrar o que tanto temia. Agora, cogitava a idéia de dar o assunto por encerrado.
Sádicos, masoquistas e covardes. O medo é o sentimento mais engraçado dos três. O desconhecido se distancia mais e o conhecido se transforma em desconhecido. O medo é o sentimento que mais nos modifica e mais escancara o que realmente somos.
O ar lhe faltava nos pulmões e ajudava no silêncio do quarto. Sem mais rodeios, colocou a caixa na escrivaninha e observou os desenhos em alto relevo da caixa rosa de bombons finos, a delicadeza e o cuidado no acabamento das bordas. Sabia que o conteúdo da caixa era de extrema estima. Sabia que corria perigo e que aquele ato culminaria numa mudança drástica de comportamento (dela, se o pegasse analisando o tal conteúdo estimado ou dele, após a conclusão de tal análise).
As pessoas têm o péssimo costume de sofrer por antecedência. Premeditam toda e qualquer situação para tentar obter a melhor resposta, a melhor ação pro momento. Todo nós antecipamos conversas, encontros e imaginamos o final perfeito que, claro, nunca acontece do jeito esperado.
Abriu a caixa rosa de bombons finos e tirou as cartas de dentro, tomando muito cuidado para dispor cada uma delas de forma que conseguisse colocá-las novamente na mesma ordem que estavam. Encontrou bilhetes e anotações. Declarações de amor e confissões de desejo da parte de outro que não era ele. Encontrou rascunhos de sentimentalidades dela para o tal outro que não era ele. Checou bem as descrições de fatos e confirmou que não datavam de antes do relacionamento, mas sim durante. Olhou para a cama novamente e viu tudo com outros olhos.
O ser humano tem uma capacidade incrível de mudar percepções e alterar fatos. A criança que deseja muito um brinquedo e, quando o tem, não vê graça. A vibração de voltar às aulas depois das férias e sentir todo o tédio possível ainda na primeira matéria. Comprar todos os discos de um artista e repugnar seu visual quando a moda muda de tendência. Todos conseguimos de forma inigualável possuir opiniões e opções mutáveis e até voláteis. Tudo depende de uma fração de segundo ou de um movimento a mais ou a menos.
Guardou tudo com maestria. Ninguém conseguiria dizer que aquela caixa rosa de bombons finos foi tocada e muito menos revirada de maneira tão profunda. E profunda era a indignação que sentira naquele momento, em pé ao pé da cama enquanto ela se revirava delicadamente procurando seu corpo sem sucesso.
Ela abriu os olhos e viu o abajur meio embaçado. Virou-se de bruços e esboçou uma tentativa de se levantar e não encontrou nada. Olhou para os dois lados da cama e se perguntou sobre o paradeiro dele que, após aguardar esse esforço, indicou sua localização dizendo “cá estou”.
Sentou-se no seu lado da cama encarando a face ainda desnorteada e ainda assim extremamente bela. As maçãs do rosto dela possuíam uma coloração rósea que sempre o intrigou. Com um olho aberto e o outro pressionado, ela perguntou “por onde andou!?”. Não obteve resposta alguma. Apenas um olhar estranho, meio vago.
“O que estás a pensar!?” – questionou de modo um tanto quanto assustado perante a face taciturna difícil de se ver num rapaz que sempre se apresentou tão sereno.
Ele se aproximou e a ajudou a sentar na cama. Suas mãos apertaram com firmeza os braços da garota que encarou o gesto com confusão ainda maior. Seus olhinhos pretos demonstravam completa incerteza naquele momento enquanto os olhos dele eram tomados por intensa amargura e realização ao mesmo tempo. Era chegada a hora.
Ela nunca havia sentido um abraço tão sincero na vida. Um afago viril e ao mesmo tempo tão doce que ela se entregou por completo àquele ato extravagante para uma madrugada trivial como tantas outras.
Deitou-a de costas, abraçou o corpo frágil e de belas formas dela. Deitado e vendo apenas as pontas do cabelo dela que faziam uma curva na orelha e ficavam espetados pra cima, deu um sorriso aliviado e sem sal. Finalmente descobriu seu espaço no mundo. Estava feliz de se sentir tão fraco e tão humano.
