terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Em dia de paredão, Fidel pede pra sair.

Ah...o charme de Havana....





Com certeza a imagem de Fidel Castro continuará tão mítica quanto de Che Guevara (cultuado até hoje em Cuba e em toda a América Latina. Seu rosto é estampado em ruas, monumentos e casas, como se fosse um santo enviado à ilha para auxiliar o até então herói revolucionário).

Fidel Castro é brilhantemente paradoxal. É certamente um líder do cacife de bentos como Símon Bolívar, Emiliano Zapata e José de San Martín, mas ao mesmo tempo viveu um regime de 49 anos subsidiados por Uniões Soviéticas, Capitais estrangeiros, Turismos “para inglês ver” (os turistas não podem andar livremente por Havana, mas sim em lugares próprios) e, nos últimos tempos, Hugos Chaves cheios de pretensão e pouco ativismo.

Se a sua revolução deu certo, nós ainda não sabemos. Hora Fidel ganha pontos comos índices de educação e medicina avançadíssimos , hora divide opiniões e a população, que até os dias de hoje fogem para Miami para não viver mais sob as ordens da farda verde-oliva.

A ilha acabou sofrendo com o embargo americano e Fidel Castro governou por quase meio século sob forte pressão mundial, tornando-se (voluntária ou involuntariamente) o Darth Vader caribenho. Lutou contra a ditadura de Fulgencio Batista e acabou formando um governo que cerceou a liberdade de expressão e a democracia. Errico Malatesta escreveu em seus “Escritos Revolucionários” que o Estado é visto como limitador da liberdade, portanto todo Estado é totalitário.


Mas nem tudo são flores. Vizinho da maior potência liberal do mundo, o regime cubano poderia ser facilmente esmagado com a massificação dos ideais tentadores do capitalismo e do liberalismo. Com espaço aberto para quaisquer comentários, Fidel seria facilmente engolido pela lavagem cerebral do sonho americano, assim como fomos na década dourada de 50, quando fomos hipnotizados pelo cinema de Carmen Miranda, a voz deliciosa do “Blue Eyes” Sinatra e suas regravações da bossa nova, a televisão com Zé Carioca e carros grandes pra lavar todo final de semana.

A chamada democracia já provou por A mais B que é tão utópica quanto o tal socialismo pregado em Cuba. A política mundial é manipulada desde os tempos dos césares em Roma, as guerras não têm outro propósito se não gerar lucros e contatos de negócios, a mídia dos países chamados democráticos é comprada, forjada ou fabricada (e, dizem até as más línguas, alterada) e George W. Bush fez questão de mais uma vez duvidar de nosso intelecto ao dizer que espera que a ilha se restabeleça como um estado democrático, com liberdade e eleições justas e verdadeiras. Espero que não sejam como as que ele “venceu” da primeira vez...

Muitos fizeram declarações públicas como se Fidel tivesse morrido, mas podem guardar as coroas de flores e enxugar as lágrimas de crocodilo. Fidel ainda dará muito que falar e só será um caso encerrado quando realmente sua alma impaciente der sossego ao corpo já debilitado.

O futuro de Cuba não é tão incerto quanto parece. Raúl Castro pode não ter o carisma ou a retórica de seu irmão, mas lutou com Fidel desde os tempos da revolução (foi Raúl quem apresentou Guevara à Fidel e, juntamente com Guevara, foi o primeiro a se declarar publicamente como marxista). Acima disso tudo ainda temos a população cubana que não se alarmou com a notícia, mostrando que mudanças são esperadas nas mãos de Raúl, mas nada de transformações na base da cultura cubana.

Cuba é uma contradição, assim como é seu ex-líder, assim como são todas as críticas a sua figura e todo seu trabalho, assim como serão seus próximos momentos e assim como serão essas e outras divagações sobre o fim da vida política de Fidel Castro.